O Olhar Abedista
A ABD é a única entidade realmente nacional no panorama associativo do cinema brasileiro. Em uma cinematografia repleta de entidades de todos os tipos, a ABD, é aquela que melhor reflete a diversidade cultural do nosso país.
Ela agrega os realizadores emergentes, os autores do curta e do documentário, aqueles cineastas mais propensos a inovar, tanto nos filmes quanto no modo de fazer política cinematográfica. A ABD nunca teve vocação corporativista - ela representa os realizadores que assumem a área cultural do cinema brasileiro, sejam ou não associados. A ABD sempre defendeu políticas, nunca personalidades ou projetos pessoais.
Meu contato com a ABD se deu em 1978, quando comecei a produção do meu primeiro curta, “Fênix”. O realizadores vivia a euforia da recente regulamentação da lei que garantia a exibição dos curtas nos cinemas, como complemento ao longa estrangeiro. Na verdade, a Lei 6.281, de 1975, havia sido rapidamente regulamentada, tendo possibilitado a criação do Concine e a reestruturação da Embrafilme; mas o Art. 13°, que tratava do curta metragem, estava sendo adiado pelos altos poderes cinematográficos. Com a aproximação das comemorações dos 80 anos do cinema brasileiro, a ABD firmou posição: “se o artigo do curta não for regulamentado, faremos uma anti-comemoração junto à imprensa e à sociedade”. Em resposta a esta pressão, veio a regulamentação, em agosto de 1977, na forma da Resolução 18 do Concine.
Ao invés de constituir diversas firmas produtoras para processar o registro legal dos filmes, muitos de nós partimos para a criação da Cooperativa dos Realizadores Cinematográficos Autônomos – Corcina, que chegou a reunir 52 cineastas. Participei das três primeiras diretorias da Corcina, sendo presidente entre 1980 e 1981. Nossa cooperativa era um coletivo de realizadores independentes que reuniam-se para discutir cinema, juntar esforços de produção, legalizar os títulos e ampliar os espaços de distribuição e exibição. Umbelicalmente ligada à “lei do curta”, deixou de existir quando os exibidores, através de uma sucessão de artifícios, conseguiram alijar os curtas independentes dos cinemas, substituindo-os por seus filmes de encomenda. Muitos realizadores, desiludidos da possibilidade de realizar um novo curta através da renda de bilheteria, passaram a vendê-los, por um irrisório preço fixo, aumentando assim o estoque de títulos nas mãos dos exibidores.
No Rio, o presidente da ABD na fase da regulamentação da lei era Noilton Nunes. Orlando Bonfim Netto foi seu sucessor, em um período marcado pelas sucessivas tentativas de barrar a picaretagem promovida pelos exibidores. A distribuidora de curtas da Embrafilme, que no primeiro ano da lei permitiu a alguns poucos realizadores a recuperação integral do investimento em produção, enfrentava crescente dificuldade em programar os títulos independentes. Em quatro anos - entre 1977 e 1981 - 954 filmes foram habilitados à exibição em cinemas, mas a Embrafilme, com mais de 500 títulos em carteira, tinha sua penetração limitada a uma franja residual do mercado exibidor. Sergio Santeiro manteve viva a ABD-RJ durante dois anos e meio, nesta difícil fase de baixa produção que acarretou um esvaziamento da entidade.
Fui presidente da ABD-RJ entre 1983 e 1984. Neste período, nos concentramos em 2 frentes institucionais – Embrafilme e Concine – e uma frente interna - reestruturação da entidade e contatos sistemáticos com as demais seções regionais, com vistas à consolidação de uma representação nacional.
A interlocução entre a ABD e a Embrafilme tinha se tornado muito difusa. A empresa eventualmente cedia seus equipamentos ou produzia projetos de curtas de cineastas consagrados, mas não existia uma política de produção que pudesse atender às necessidades dos realizadores emergentes. A ABD-RJ vinha desenvolvendo uma proposta de reforma estrutural da área cultural, centrada na criação de um órgão específico - Centrocine - independente administrativa e financeiramente da Embrafilme e orientado por um Conselho onde as entidades teriam participação permanente. Ao mesmo tempo, reivindicávamos uma política para o curto prazo, de modo a promover a retomada da produção independente, de forma democrática e transparente, através de concursos periódicos.
Carlos Augusto Calil, diretor da Diretoria de Assuntos Não Comerciais da Embrafilme, acolheu a proposta de criação de um Conselho Consultivo na DONAC que, a partir de dezembro de 1983, discutiu as propostas das ABDs, das cinematecas, dos pesquisadores e das escolas de cinema, permitindo alguns avanços significativos. Na mesma época a Embrafilme começou a realizar concursos trimestrais de projetos para produção de curtas, através de uma comissão composta por dois membros indicados pelas ABDs e dois funcionários da empresa. Estes concursos evoluíram gradativamente, até chegar, em 1976, a 72 filmes de curta e média-metragem por ano.
A Jornada da Bahia de setembro de 1983 foi histórica, marcada por um grande otimismo entre os curtametragistas que participaram não só das discussões desta política de produção que a Embrafilme começaria logo em seguida a implementar; mas também de uma proposta de reformulação completa da “lei do curta”. Tratava-se de substituir a remuneração através de um percentual da bilheteria dos cinemas por um prêmio em dinheiro pago aos realizadores dos filmes selecionados por um júri. O valor do prêmio correspondia a mais de 50% do custo médio de um curta, possibilitando ao realizador a arrancada para um novo projeto. Os júris se reuniam a cada três ou quatro meses, com participação das ABDs. No entanto, para capitalizar o fundo que permitiria o pagamento dos prêmios, o presidente do Concine fez um acordo informal com os exibidores, que além de pagarem um percentual da bilheteria menor que o anteriormente devido ao curta, não se comprometiam a exibi-los. Uma situação anômala, que possibilitava uma retomada da produção, mas esvaziava a função social dos nossos filmes ao retira-los das telas.
Ainda que a exibição em cinemas não tenha sido reconquistada, as novas condições de produção, seleção e premiação de curtas proporcionaram, entre 1984 e 1986, uma excepcional safra de filmes, identificada pela crítica através da expressão, de gosto duvidoso, “primavera do curta”.
Em 1984 o mercado do vídeo foi regulamentado pelo Concine. Nós tentamos uma janela semelhante àquela dos cinemas, com um curta brasileiro acompanhando cada filme estrangeiro nas fitas comercializadas com o selo legal. Não houve apoio das demais entidades e o que conseguimos negociar foi uma reserva de mercado dentro da reserva destinada ao cinema brasileiro - um percentual das fitas contendo filmes nacionais seria composta de programas de curtas. Este dispositivo, incluído na resolução, nunca foi cumprido.
O Conselho Nacional da ABD, que não se reunia desde 1981, foi convocado para Olinda em abril de 1984. O principal item da pauta seria a discussão da autonomia da área cultural em torno da proposta do Centrocine, mas a grande surpresa do encontro foi a proposta, levantada por Brasília e Ceará, para que a Embrafilme adotasse um sistema de quotas na seleção trimestral dos projetos de produção, ou seja: Rio de Janeiro, São Paulo e as demais regiões do país seriam contempladas, cada uma, com um terço dos recursos disponíveis. A proposta, vencedora no plenário do Conselho das ABDs, foi acolhida pela Embrafilme e veio a criar enorme polêmica entre os realizadores. Sempre fui contrário a este engessamento dos concursos, que limitava o resultado segundo critérios de origem, independentemente do mérito dos projetos concorrentes. Muitos realizadores de fora do eixo RJ-SP viriam a concordar que a política de quotas era uma camisa de força que, ao invés de estimular, limitava a produção regional ao máximo um projeto de cada estado por edital.
Entre 1987 e 1988 fui eleito novamente presidente da ABD-RJ. Um dos principais focos de atuação da entidade naquele período foi a campanha pela volta do curta às telas dos cinemas comerciais. O presidente do Concine, Gustavo Dahl, aceitou a proposta de criação de um grupo de trabalho onde participavam Adilson Ruiz, Berenice Mendes, Isa Castro, Aurelino Machado, Gustavo e eu. Durante meses nos reunimos semanalmente, até chegarmos à minuta da resolução 137, que reformou o sistema de seleção, premiação e distribuição dos curtas, possibilitando o retorno da exibição como complemento do longa estrangeiro.
O centro das atenções das ABDs naqueles anos era a autonomia da área cultural, no bojo de mais uma reforma institucional que se desenhava na área cinematográfica. A autonomia veio a acontecer, com a criação da Fundação do Cinema Brasileiro, mas sem as condições mínimas de funcionamento. Na verdade, o vetor do projeto da autonomia foi invertido e, de aparente vitória, representou uma derrota para o segmento cultural do cinema brasileiro. A Embrafilme livrou-se de suas obrigações para com a produção, difusão e distribuição de curtas e documentários, a formação, as publicações e as cinematecas; mantendo para si todas as fontes de receita e reduzindo drasticamente suas despesas fixas, ao transferir para a Fundação mais da metade de seu quadro de funcionários. Por outro lado, a FCB nunca teve dotação orçamentária aprovada e sobreviveu de sucessivos repasses da Embrafilme, “empréstimos” que mal atendiam às suas necessidades de custeio. O Conselho Consultivo, com participação das entidades do setor também não foi formado. Enfim, muito pouco foi realizado pela Fundação, até que o furacão Collor viesse desmontar todo o aparelho institucional da cultura. A atividade cinematográfica sofreu um enorme baque com o desaparecimento da Embrafilme, do Concine e da FCB. A ABD se manteve mobilizada e, em poucos anos, criou uma estrutura nacional efetiva, aperfeiçoando as condições para a representação democrática das diversas regiões e cumprindo cada vez melhor o seu papel de oxigenação e renovação do cinema brasileiro.
Entre os companheiros que participaram ativamente da ABD-RJ nos anos 80, me lembro com especial carinho de Eunice Guttmann, Maria Luiza Aboim, Tetê Moraes, Sandra Werneck e Sergio Santeiro.
Sílvio Da-Rin Cineclubista, um dos primeiros presidentes da Federação de Cineclubes, foi técnico de som em 150 filmes. Assumiu em 2007 o comando da Secretaria do Audiovisual, substituindo Orlando Senna. Seu nome está presente nos créditos de diversos filmes realizados na década de 1990, entre eles Pequeno dicionário amoroso (1997), de Sandra Werneck,Amores (1998), de Domingos Oliveira, Cruz e Souza, o poeta do Desterro (1999), de Sylvio Back, Mauá - O imperador e o rei (1999), de Sérgio Rezende,Amores possíveis (1999), de Sandra Werneck, Condenado à liberdade (2000), de Emiliano Ribeiro, Villa-Lobos, uma vida de paixão (2000), de Zelito Viana,Avassaladoras (2001), de Mara Mourão, Bellini e a esfinge (2001), de Roberto Santucci, Separações (2002), de Domingos Oliveira, e O preço da paz (2003), de Paulo Morelli. Carioca de 1949, formou-se em comunicação visual pela ESDI e participou de um workshop de som para cinema na UCLA, Califórnia, em 1981. Em 1980 dirigiu o curta Fênix, e em 1984,Príncipe do fogo, premiado em Gramado e no RioCine. Com o documentário Igreja da libertação (1985), foi premiado no Festival de Leipzig. Produziu os curtas Pena prisão (1984) e Damas da noite (1987), de Sandra Werneck. Foi técnico de som do longa americano rodado no Brasil The flying virus (2002), de Jeff Hare, além dos recentes Querido estranho (2002), de Ricardo Pinto e Silva, Onde anda você (2003), de Sérgio Rezende, No meio da rua (2003), de Antonio Carlos da Fontoura, Viva voz (2004) de Paulo Morelli, Quase dois irmãos (2004), de Lúcia Murat, Achados e Perdidos (2005), de José Joffily, e Onde andará Dulce Veiga? (2007), de Guilherme de Almeida Prado. Em 2004, sua dissertação de mestrado na Escola de Comunicação da UFRJ foi publicada em livro, com o título Espelho partido - tradição e renovação do documentário cinematográfico, já adotado em diversos cursos de cinema. Integra a equipe docente da Pós-graduação em documentário da Fundação Getúlio Vargas. Dirigiu o documentário Hércules 56 (2007), sobre 15 prisioneiros políticos trocados pelo Embaixador americano num seqüestro em 1969 por grupos revolucionários.
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Meu primeiro contato com a ABD aconteceu num dos primeiros meses de 1982. Eu tinha 19 anos, estudava e fazia estágio no laboratório de still do cineasta e fotógrafo André Farias, diretor do censurado Prata Palomares, que vive hoje em Curitiba.
Havia reuniões da ABD que ocorriam na PUC (onde eu estudava), e fui lá eu. Era numa sala do Departamento de Comunicação, no Edifício Kennedy, e me lembro das figuras de Sérgio Rezende, Sérgio Santeiro, Silvio Da-Rin, Noilton Nunes, José Joffily e mais um ou dois realizadores, todos na casa dos 30 e todos homens. Falava-se algo sobre a lei da obrigatoriedade de exibição do curta, de uma possível reunião com um ministro qualquer etc., mas confesso que fui embora achando tudo muito chato. Só voltei a participar de outra reunião da ABD muitos anos depois.
Agosto de 97, Festival de Curtas de São Paulo. Meu primeiro curta, Vox Populi, no seu primeiro festival. Vou dividir quarto com Sérgio Santeiro, que tinha ido para participar da eleição da 3a Diretoria Nacional da ABD. Agradecimentos sempre à Zita Carvalhosa. Minhas primeiras conversas com Santeiro foram em torno da Lei do Curta.
A presidência era de André Sturm (SP) em fim de segundo mandato, e Giba Assis Brasil (RS) era o vice. Havia uma proposta defendida pela ABD&C/RJ de retornar ao sistema de diretoria colegiada da entidade, acabando com o sistema presidencialista. Sobre este ponto, a ABD-SP tenha proposta diferente – presidencialista - e estava articulando uma chapa (Leopoldo Nunes estava nesta chapa). É bom lembrar que a divisão da diretoria da ABD era feita por 5 regiões e 5 votos: Rio, São Paulo, Sul, Norte/Nordeste e Centro-Oeste/Leste, sendo que Rio e São Paulo alternavam a presidência. Participei dessa Assembléia Geral sem conhecer ninguém, mas acabamos por criar um grupo que elegeu Sérgio Santeiro como presidente e derrubou tanto a proposta parlamentarista carioca quanto a intenção paulista de manter a presidência em casa. A diretoria eleita foi composta também com Luís Carlos Soares (SP), Cláudio Assis (PE), André Luis da Cunha (DF) e Zeca Pires (SC). Sua meta prioritária a regulamentação da Lei do Curta.
Durante o biênio 97/98, Vox Populi participou de vários festivais brasileiros, onde tive contato com a maioria dos realizadores do país, o que reacendeu minha verve de militância política dos tempos da UEE e da UNE. Comecei a freqüentar as reuniões da ABD&C/RJ, onde as pautas eram, digamos, mais pragmáticas. Encontrávamo-nos quinzenalmente no Cosme Velho, na casa-sede da Raccord, cujos sócios eram os também abedistas Rosane Svartman, Vinícius Reis e Clélia Bessa. O presidente carioca de então era Eduardo Nunes, que foi sucedido por Paulo Halm, que por sua vez o foi por duas vezes Mário Diamente (da última chapa eu fui diretor) e, na seqüência, por este Marcelo Laffitte que ora escreve.
Abro parênteses na narrativa para uma opinião. Uma particularidade marcante das ABDs do Rio e de São Paulo até o fim dos anos 90, que acaba influenciando toda a política nacional pelo peso desses Estados, é serem compostas por realizadores de curtas de ficção com produção em película. Em outras regiões do país esta situação é muito diferente, pois a ABD local é o único ponto de referência dos profissionais, estudantes ou interessados em audiovisual em várias capitais do país, aglutinando repórteres e cinegrafistas de TV, realizadores de vídeo, publicitários, cineclubistas e outros. Com a afirmação da produção digital, com a redescoberta do documentário como produto cinematográfico de sucesso e com a chegada ao cenário de inúmeros estudantes dos novos cursos e faculdades de cinema, este predomínio comum às ABDs carioca e paulista tende a diminuir, o que talvez leve essas entidades para mais perto das realidades das outras ABDs brasileiras.
No início de 1999, criamos uma lista de discussão pela internet que fosse exclusiva para assuntos abedistas. A lista então ABD - hoje ABEDISTAS - começou com meia dúzia de gatos pingados, entre eles Chiquinho César Filho, Giba, Andréa Glória, Leopoldo Nunes, Paulo Halm, Moema Muller, Silvio Da-Rin, Toni Venturi e alguns outros realizadores espalhados pelos Estados do país. Começou-se a perceber que os movimentos políticos estaduais estavam completamente desarticulados e isolados de uma política nacional para o curta-metragem, a ponto de – e cabe apenas como exemplo - os realizadores de Minas Gerais terem criado a Associação Curta Minas sem saber que já tinha havido uma ABD-MG no passado. Justamente nesta época, a então Secretaria do Audiovisual do MinC editou um concurso nacional para curtas (Paulo Halm deu uma prensa pública no ministro Weffort durante o Festival do Recife) e as expectativas, dúvidas e demandas de curta-metragistas do Brasil inteiro sobre o concurso começaram a ser trocadas diariamente pela lista. Sentiu-se, então, a necessidade urgente de se ter uma ABD Nacional que não fosse exclusivamente um instrumento para regulamentar a Lei do Curta e, naquele momento, emergiu a liderança de Leopoldo Nunes.
Em agosto de 1999 houve eleição na ABD Nacional, sempre no Festival de Curtas de São Paulo, organizado por Zita Carvalhosa, e a chapa eleita era composta por Leopoldo Nunes (SP), Paulo Halm (RJ), Fernando Severo (PR), Eduardo Benfica (GO) e Emanoel Freitas (PA). Algumas ABDs estaduais estavam se reestruturando e outras novas sendo criadas (não estou certo, mas creio que o número de ABDs naquele ano era de 17 ou 18), e o carro-chefe da mobilização eram os concursos federais.
A administração de José Álvaro Moisés (conhecido por nós como JAM) na Secretaria do Audiovisual, apesar de equivocada em vários pontos, foi saudável para a organização tanto da ABD Nacional quanto das regionais. Não fossem os concursos federais com seus problemas, e não fosse a lista na internet com sua velocidade na troca de informações e mobilização, a história da ABD seria diferente. Foi somando tudo isto, por exemplo, que Leopoldo implementou o Convênio Nacional ABD, uma extensa negociação comercial de descontos com fornecedores de equipamentos e serviços exclusivamente para curtas, que viabilizou a realização de filmes em Belém, Cuiabá, João Pessoa, Juiz de Fora, Ribeirão Preto e outras cidades com dificílimo acesso às condições de produção. Politicamente, pela primeira vez desde a sua fundação em 1973, a ABD cristalizou uma representação realmente nacional. A produção de curtas subiu para a casa dos três dígitos e iniciamos a média dos 180 filmes/ano.
A primeira gestão de Leopoldo Nunes, de 1999 a 2001, foi basicamente pautada pelo fortalecimento das estruturas internas da ABD e da legitimidade de representação institucional em nível nacional, em relação aos poderes públicos e às outras entidades da classe. O ano de 2001 foi o ano do GEDIC – Grupo Executivo de Desenvolvimento da Indústria do Cinema e da ANCINE – Agência Nacional do Cinema, foi o ano em que se alteraram profundamente as relações da produção audiovisual, representou um momento de intensa movimentação política dentro da classe cinematográfica, principalmente com a atuação do Congresso Brasileiro de Cinema, e a ABD, enquanto fortalecia suas bases, marcava posição nas grandes questões institucionais com a força de seus mais de 1.200 associados militando em mais de 20 afiliadas. Em 2001, também, houve eleição na ABD Nacional e a diretoria eleita foi composta por novamente Leopoldo Nunes (SP), Roger Madruga (DF), Emanoel Freitas (PA), Gustavo Spolidoro (RS) e eu ocupando a vice-presidência pelo Rio de Janeiro. Cabe aqui registrar que em 2001 também fui eleito presidente da ABD&C/RJ e diretor do Congresso Brasileiro de Cinema.
Chegamos finalmente em 2002 com o país preste a mudar o Presidente da República e o cinema esperançoso quanto às definições dos rumos da recém implantada ANCINE. Esta última, infelizmente, viu-se perdida entre os ditames da burocracia estatal e as complexas demandas da classe, não conseguindo agilidade suficiente para mostrar a que veio. Por outro lado, os debates da disputa presidencial fizeram arena própria no meio cinematográfico, contrapondo ideologias que variavam do nacionalismo contundente ao liberalismo total, principalmente em relação ao sistema de financiamento e funcionamento da indústria audiovisual. Durante todo este ano, a totalidade dos programas federais afetos ao curta-metragem foi inconseqüentemente interrompida, desde a simples passagem para festivais internacionais até os concursos de produção. O ano termina e Lula é presidente.
Entre a eleição e a posse de Lula, o cinema se articula para, de alguma forma, influenciar nas futuras ações de governo e, neste momento, a atuação da ABD é fundamental e decisiva. Gilberto Gil é empossado Ministro da Cultura e, com forte apoio da ABD Nacional e de suas afiliadas, Orlando Senna é nomeado para ocupar a Secretaria do Audiovisual, levando consigo Leopoldo Nunes para ocupar a Chefia de Gabinete que, de certa forma, equivale a subsecretário. Mais importante que a ocupação de cargos, a presença de Orlando e Leopoldo no governo, seguidos logo depois por Manoel Rangel, representava claramente para a classe que os paradigmas das relações com o governo estavam mudando rumo à democratização dos recursos, à descentralização e regionalização da produção e à transparência e participação política, que sempre foram bandeiras históricas da ABD. E assim foi: desde o primeiro momento, o novo governo afirma sua convicção de que o audiovisual é estratégico para o projeto de país que se apresenta, e o MinC, por sua vez, declara seu entendimento de que o audiovisual é um assunto cultural, mesmo que tenha pontos em comum com outros ministérios. Com a ida de Leopoldo para o Ministério, assumo a vaga de presidente da ABD Nacional.
O governo Lula inicia com contingências orçamentárias em todos os setores, inclusive o cultural e cinematográfico. Os primeiros meses, na ausência de perspectiva imediata de implementar ações, a equipe do audiovisual empenha-se em criar os alicerces para uma intervenção mais decisiva. Tirantes questões e polêmicas conjunturais, como foi o caso do patrocínio das empresas estatais, o desafio do MinC era trazer para si o controle sistêmico da atividade cinematográfica e a grande batalha foi a vinculação da ANCINE que, originalmente na Medida Provisória de sua criação (MP 2228-1), estaria vinculada ao Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio. Após meses de debates e articulações, por vezes até traumáticas para as relações institucionais, Lula finalmente assina a vinculação da Agência ao Ministério da Cultura. Neste mesmo dia, Lula coloca um boné da ABD Nacional e empunha uma câmera 16MM e se torna o primeiro presidente documentarista da história do Brasil.
Durante este período de estiagem produtiva e intensa movimentação política, a ABD Nacional também aproveitou para reformular sua organização interna. Sempre com os olhos para a representação nacional e para a regionalização da produção, a entidade começa um processo de alteração estatutária, aumentando o número de unidades regionais - de 5 passamos a 7, equilibrando a participação das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste – e passando de 5 para 10 o número de vagas na diretoria. Em agosto de 2003, como sempre no Festival de São Paulo, fazemos novas eleições para a ABD Nacional na qual fui eleito presidente, na diretoria composta por também por Guigo Pádua (MG), Hermano Figueiredo (AL), Paulo Boccato (SP), Caio Cesaro (PR), Érika Bauer (DF), Solange Lima (BA), Marta Nassar (PA), Pedro Rosa (RJ) e André Ristum (SP).
Concomitantemente, pressionávamos o governo para garantir a participação da classe cinematográfica nos processos decisórios e viabilizar programas de fomento antigos e novos. O resultado foi que fechamos 2003 com posse tanto o Conselho Superior de Cinema quanto no Conselho Consultivo da SAv, e com um investimento direto do governo federal, por intermédio de concursos públicos, que impressionava menos pelos montante dos recursos, que eram os mesmos R$15mi, do que pela proliferação de certames (documentários, infantis, longas, curtas, distribuição, roteiros etc). Hoje esses concursos são o DocTV, os BO’s etc.
O ano de 2004 está apenas começando e nossos grandes desafios são três: um interno, outro externo e um terceiro que é eterno. Internamente, toda a nossa atenção deverá estar voltada para a definição e aprimoramento das questões da regionalização da produção, de forma clara e consciente, sem bairrismos ou fobias despropositadas. Nas relações com a classe e com o governo, a meta é transformar os mecanismos de participação (como o Conselho Consultivo da SAv e outros a serem criados) em fóruns deliberativos e permanentes, que não fiquem ao sabor dos humores do governo de plantão. E, finalmente, a Lei do Curta. Porque a grande revolução que o cinema pode fazer numa sociedade é fazê-la presente em suas telas para ser vista e conhecida, é a afirmação da identidade através do seu próprio reconhecimento. E para isso nada melhor que um bom curta-metragem brasileiro antes de um filme hollywoodiano.
Marcelo Laffitte - Diretor dos curtas-metragens Fúria, Ópera Curta, Banquete e Vox Populi. Na ABD Nacional foi vice-presidente eleito em 2001, presidente em exercício a partir de janeiro de 2003 e eleito presidente para o mandato 2003/2005. Na ABD&C/RJ, foi presidente da em 2002, além de várias vezes ter assumido diretorias. Foi diretor do Congresso Brasileiro de Cinema de 01/03. É titular do Conselho Consultivo da SAv para o biênio 2004/2005.
Texto escrito em 09/01/2004, para ser publicado no livro ABD 30 anos.
Revisto em 28/01/06 para ser publicado no site www.abdnacional.org.br.